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Unificação e Apogeu

Loja Fênix - Lisboa / Portugal

Entre 1867 e 1872 tornou-se enfim possível conciliar a família maçónica desavinda. 1869 representou data importante neste processo de unificação, visto que três das quatro obediências então subsistentes chegaram a acordo (o Grande Oriente Português - por sua vez já resultado de união anterior entre o Grande Oriente de Portugal, a Grande Loja Portuguesa, a Confederação Maçónica e a Federação Maçónica -, o Grande Oriente Lusitano e o Oriente do Rito Escocês), criando-se o Grande Oriente Lusitano Unido, sob o grão-mestrado do conde de Parati. Três anos depois, a Grande Loja Provincial do Oriente Irlandês integrava-se igualmente no todo, concluindo-se a unificação da Maçonaria portuguesa.

Desde então, e durante quase meio século, tornou-se possível manter unidade entre os maçons lusitanos, à excepção de breves cisões pouco duradouras (em 1872, 1882-1884, 1894-1895 e 1897-1904) e que mal afectaram o progresso da Ordem.

Foi o grande período da Maçonaria portuguesa. Ao seu robustecimento interno aliaram-se uma constante posição de vanguarda ideológica de tipo político-social e uma actividade prática notável em todos os campos da vida da nação. No grão-mestrado sucederam-se o conde de Parati (1869-1881), Miguel Baptista Maciel (1881-1885), Elias Garcia (1885-1886 e 1888-1889), António Augusto de Aguiar (1886-1887), o visconde de Ouguela (1889-1895), Bernardino Machado (1895-1899), Ferreira de Castro (1900-1906), Francisco Gomes da Silva (1906-1907) e, por fim, Sebastião de Magalhães Lima (1907-1928).

O povo maçónico aumentou, no mesmo período, de cerca de meio milhar de irmãos, em 1869-70, distribuídos por 36 oficinas, para 1949 irmãos, em 1904, distribuídos por 85 oficinas, atingindo o seu número máximo em 1913: 4341 obreiros em 198 lojas e triângulos. A relação entre cada maçon e o número total de habitantes do País passara de 1/10500 (1869) para 1/2750 (1904) e, por fim, 1/1380 (1913).

Em 1881 surgia a primeira loja de adopção.

Não se esqueça ainda esse fenómeno curioso, subsequente à revolução espanhola de 1868 e à irregularidade maçónica que ao país vizinho sobreveio, que foi a agremiação de dezenas de lojas de toda a Espanha e das próprias possessões espanholas. Durante mais de dez anos as Maçonarias portuguesa e espanhola estiveram unidas, numa prefiguração de União Ibérica, mas sob a égide do Grande Oriente Lusitano Unido. Em 1871 havia nada menos de 24 lojas de fala castelhana ou catalã obedecendo a Lisboa. Em 1887 ainda se contavam 8 destas oficinas, ao lado de uma loja romena e outra búlgara.

O Grande Oriente Lusitano Unido publicava, desde 1869, um Boletim Oficial mensal, e, embora com irregularidade, um Anuário onde se analisava a situação da Ordem. Instalara-se, desde começos da década de Oitenta, num amplo palácio no Bairro Alto, o que lhe conferia uma das melhores sedes de todo o mundo.

Grande parte da élite do País estava filiada na Maçonaria. Presidentes do Conselho como o duque de Loulé, o duque de Saldanha, Joaquim António de Aguiar, Rodrigues Sampaio, Anselmo Braamcamp, José Luciano de Castro, José Dias Ferreira; ministros das várias pastas, como António Augusto de Aguiar, António Enes, Mendes Leal, Bernardino Machado, o bispo de Betsaida; políticos como José Estevão Coelho de Magalhães, Elias Garcia e José Fontana; escritores como Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Inocêncio da Silva, Gomes de Brito, Brito Rebelo, Heliodoro Salgado; cientistas como Egas Moniz; artistas até, como Rafael Bordalo Pinheiro; todos estes e muitos outros foram obreiros das lojas maçónicas, distribuindo a sua actividade por épocas e localidades diferentes. No campo legislativo, a obra da Maçonaria inscreveu-se entre as grandes conquistas do progresso do tempo: abolição da pena de morte e da escravatura, criação de escolas aos níveis primário e secundário técnico segundo novos métodos de ensino, difusão da instrução nas colónias, instituição de asilos para crianças, combate ao clericalismo e começos da laicização das escolas, fundação de organismos capazes de organizarem a instrução e a assistência segundo novos moldes, campanha a favor do registo civil obrigatório, etc. Os principais códigos de Direito foram subscritos por ministros maçons. Também a criação do júri se lhes deve. Todas estas medidas resultaram, em parte, da acção colectiva, sobretudo das lojas, que aliás não se conhece ainda com rigor. Mas o que não está de todo feito é a história da participação da Maçonaria ao nível individual, isto é, o impacte da ideologia maçónica e da pressão tácita da Ordem sobre os seus filiados ministros, parlamentares, altos funcionários, dirigentes de empresa e outros, a qualquer nível e em qualquer ramo do conhecimento e da vida nacional. Essa participação, que se adivinha grande, tem sido proclamada, quer por defensores, quer por adversários da Maçonaria, mas com escassos fundamentos objectivos. Só com uma análise aprofundada das actas das lojas e de outras reuniões maçónicas, e um arrolamento completo dos obreiros e sua declaração profissional será possível chegar a conclusões válidas e indisputadas.

A análise dos temas debatidos nos vários congressos maçónicos e da forma como essa discussão foi orientada revela-se do maior interesse. Nas comunicações e intervenções patenteavam-se quase sempre posições de vanguarda ideológica e pragmática. Antes da República realizaram-se os congressos de Coimbra (1903), de Lisboa (1905) e Figueira da Foz (1906), o segundo denominado Congresso Maçónico Interpeninsular e reunindo maçons da Espanha e de Portugal. Depois do 5 de Outubro tiveram lugar os congressos nacionais de Lisboa (1913), Porto (1914) e novamente Lisboa (1924).