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Sonho ...
Ir.: Márcio Ailto Barbieri Homem
Porto Alegre, ano de 2000.
Meu querido Irmão;
Escrevo esta, rogando ao Divino Pai que estejas bem de saúde, gozando de muita paz e tranqüilidade. Resolvi te contar, nesta singela carta, um estranho sonho que tive noite destas, e o qual ainda tem me feito pensar bastante. Resolvi dividi-lo contigo.
As datas e locais ainda são confusos, e a impressão que tenho é que o sonho ainda está acontecendo, como se não tivesse despertado. Sei, parece estranho, mas vais entender logo que te explicar, acredite em mim.
Logo após adormecer, vi-me mergulhado numa escuridão absoluta, em um local estranho, silencioso, exceto por suaves murmúrios de vozes em minha volta. Ao contrário do que se poderia esperar, não estava com medo. Alguma coisa me dizia que, mesmo imerso na escuridão, estava em segurança, entre amigos. Uma mão firme guiava meus passos, uma voz confiável ditava-me respostas às muitas perguntas que me faziam, e eu estava sinceramente tomado pela importância e pela majestade do momento.
Sempre bem guiado, fiz algumas viagens, enfrentei perigos, caminhei por terras estranhas, por caminhos tortuosos e caminhos suaves. E sempre, ao regressar e cada viagem, me via amparado, confortado pelos desconhecidos que, sussurrando, diziam-me que estava bem acompanhado. Mas o mais estranho, caro mano, é que mesmo que nada sussurrassem, eu sentia uma sensação de estar amparado, de estar assistido.
Desejava, mais do que tudo, a luz necessária para findar a escuridão, mas não por desespero ou medo; desejava a luz, pois algo me dizia que, ao recebe-la, mudaria minha vida, meus pensamentos, meu ser.
E a luz, caro mano, foi-me dada. Vi-me repentinamente num imenso templo, que em meu sonho, representava todo o nosso universo. Suas dimensões, embora geograficamente estivessem limitadas entre quatro paredes, não tinham fim. Iam do Norte a Sul, do Ocidente ao Oriente, do Centro da Terra ao Céu infinito. Dentro deste Templo, umas sessenta pessoas encaravam-me, com seus semblantes suaves, que embora fossem semblantes desconhecidos, me eram estranhamente familiares, como se antigos amigos fossem.. Eram sessenta, mas pareciam milhões... Representavam todo um universo... Acredite se quiser, mas pareceram-me mais do que pessoas comuns, mais do que amigos... Eram irmãos!
Um destes, envolto, engalanado por uma aura que provava que estava inspirado por algo maior, Divino, explicou-me onde estava e o porque de estar ali. Num gesto, abrangeu todo o estranho templo, explicando-me que suas dimensões sem fim representavam realmente o universo, e sua amplidão o desejo real de caridade de todos os que ali se encontravam. A forte luz que vinha do Oriente, local onde se encontrava sua cadeira, representava o Sol, nosso astro rei, simbolizando o conhecimento humano e a extrema Doutrina do Amor, que nos foi presenteada por Jesus Cristo, sublime Luz oriunda de Deus que também nos chegou pelo Oriente.
Não imaginas a grata surpresa que tive, meu irmão, ao verificar que minha impressão inicial era corroborada por tais palavras. Timidamente, pedi em meu sonho que mais me fosse dito, pois não queria acordar antes de conhecer a fundo aquele maravilhoso lugar. Com um sorriso condescendente, esse irmão beneficamente explicou-me tudo o que me cercava.
Contou-me a respeito do Tabernáculo erigido no deserto por Moisés, fonte de inspiração do local onde me encontrava. Contou-me que o sábio Salomão, querendo glorificar o Pai Eterno, criador dos mundos, erigiu um belo templo, apoiado sobre três grandes pilares, denominados Sabedoria, Força e Beleza. Neste templo vi claramente, em meu sonho, os três pilares representados por irmãos iguais a mim, mas dotados de uma unção especial, uma luz diferente. Esses irmãos, sentados em tronos representando as colunas Jônica, Dórica e Coríntia, alegoricamente representavam os pilares do Templo de Salomão.
Sobre nossas cabeças, uma abóbada azul celeste. Minha impressão é que esta abóbada, mano, não era tangível, não era matéria. Olhando-a, me dava a impressão de que estava numa alta montanha, contemplando o céu infinito, numa noite estrelada. Entendi que minha meta, ali naquele lugar, era atingir a plenitude deste céu, tentando chegar cada vez mais perto de nosso Criador. Hesitando um pouco, afinal, é sempre difícil interpretarmos aquilo que vemos pela primeira vez, perguntei a este irmão e guia o que fazer para alcançar esta proximidade.
Mal tinha terminado a pergunta, veja só, e sob um clarão de luz apareceu uma escada dourada, com anjos espalhados em seus degraus, convidando-me a iniciar esta jornada. Em minha pressa, tentei galgar rapidamente os degraus. Fui delicadamente barrado pelo primeiro anjo, que informou-me que a escada estava ali para que eu lograsse, degrau a degrau, atingir o Pai eterno, mas precisaria de tempo e de muita dedicação. O primeiro degrau, no entanto, estava sendo conquistado ali mesmo.
Neste delicioso sonho, meu irmão, meu desejo era não acordar nunca... A tranqüilidade era absoluta. A escada continuava ali, fulgurante , descendo do infinito celeste e terminando num pavimento constituído de losangos brancos e pretos, qual um tabuleiro de xadrez... Tive a sensação de que, mesmo diferentes em cores, cada losango branco completava um negro, e vice versa. Entendi ali, que todos nós temos nossas diferenças, mas estamos unidos em comunhão, em fraternidade, pois o Criador é um só. Que felicidade quando meu guia, parecendo adivinhar meus pensamentos, concordou comigo, e informou-me que tal pavimento representava a harmonia, a coesão de todos os que ali encontravam-se. A noite estendia-se, mas não acordava desse sonho. Junto com este irmão, conheci mais detalhes deste majestoso templo. Vi o sagrado Livro da Lei, que juntamente com o compasso e o esquadro, representam a Moral justa e reta de que todo ser humano deve pautar sua vida. E tantas e tantas outras ferramentas, cada qual ensinando uma riqueza ímpar. Bem me conheces, sabes que não me impressiono à toa, mas estava realmente glorificado.
Finalmente, meu amado irmão, fui levado à um dos cantos daquele templo, e apresentado a uma pedra escura, disforme. Meu guia perguntou-me o que via. A primeira intenção, óbvia, foi responder que via uma pedra simplesmente, mas ouvindo as sensações que meu coração determinava, compreendi que, naquela pedra, estava vendo-me, tal qual o Criador havia concebido-me.
Uma pedra bruta, disforme, que em mãos hábeis transformar-se-ia em uma pedra bem acabada, que serviria como peça importante para a construção de um mundo melhor. Entendi, sem que precisassem me explicar, que a mão mais hábil para polir aquela pedra, era justamente a minha. Em mim estavam encerradas todas as ferramentas necessárias para bem executar esta tarefa determinada pelo Criador.
Tal um raio, caiu-me a nítida sensação de que o que estava ocorrendo não era um sonho, eu realmente estava naquele templo etéreo, eu realmente estava entre irmãos, eu realmente estava vivendo aqueles momentos sublimes. Deste sonho eu não mais despertaria, pois dormiu um ser pouco esclarecido, um profano, e acordou um homem diferente, um peregrino a procurar a Luz verdadeira. Despertou um Maçom.
Caro mano, talvez não entendas bem esta minha carta, este meu sonho, mas rogo ao nosso Criador, o Supremo Arquiteto deste Nosso Universo, que derrame suas bençãos sobre ti, sobre tua família e sobre esses irmãos espalhados pela face da terra, para que os sonhos, como este que tine e ainda tenho, tornem-se realidade às pessoas que tem o coração puro e desejam um mundo melhor.
Com carinho, teu irmão
Márcio Ailto Barbieri Homem
Loja Cidade De Gravataí N.º 143
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