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O ESTADO NOVO E O FECHAMENTO DAS LOJAS
MAÇÔNICAS
Ir.: José Castellani
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(...) A essa altura dos acontecimentos (1937), o ambiente político do país voltava a ficar agitado, diante de nova campanha presidencial --- já que o mandato de Getúlio Vargas deveria se encerrar em 1938 --- à qual se apresentaram duas candidaturas: a de José Américo de Almeida --- político, literato e figura de projeção no Nordeste --- e a do governador de S. Paulo, Armando de Salles Oliveira, sendo, a do primeiro, ostensivamente apoiada pelo governo federal.
Vargas, todavia, com sua formação caudilhesca, já se preparava para se instalar como senhor absoluto, impedindo as eleições. Já nos primeiros meses de 1937, muitos políticos ligados ao governo sabiam que uma nova Constituição havia sido elaborada por Francisco Campos, ministro da Justiça, com planos de continuísmo. Além de Campos, participavam da operação, para levar a cabo um golpe de Estado, o general Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, o general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, e Agamenon Magalhães, ministro do Trabalho. Os governadores de Estados, que não aderiram aos planos de Vargas, foram obrigados a se demitir, ou a fugir para o Exterior. E, em outubro de 1937, o governo solicitava, ao Congresso Nacional, a decretação do Estado de guerra, com base na existência de um vasto plano de terrorismo comunista, denominado "Plano Cohen". Todavia, como o próprio Góis Monteiro declararia, mais tarde, o Plano Cohen não passava de um documento forjado por um oficial integralista do Estado Maior. Era mais um embuste de Vargas, utilizando, em seu proveito, as lutas das facções extremistas.
Com a decretação do estado de guerra, conseguida graças à ovina docilidade do Congresso Nacional, o governo não tardou a dar o golpe de Estado. E este aconteceria a 10 de novembro de 1937,quando era dissolvido o Congresso, dissolvidos todos os partidos, extinta a Constituição de 1934 e imposta aquela elaborada por Francisco Campos. Estava implantado o chamado "Estado Novo", regime ditatorial de direita, a exemplo daqueles existentes na Itália, na Alemanha, em Portugal, na Espanha e na Polônia, numa época em que a conjuntura internacional favorecia a implantação do nazi-fascismo.
Esse fato iria repercutir em todas as instituições sociais brasileiras, inclusive na Maçonaria. O fechamento desta foi aconselhado, ao governo, a 25 de novembro de 1937, pelo general Newton Cavalcanti, membro do Conselho de Segurança Nacional. E embora isso possa não ter ocorrido entre as Lojas do então Distrito Federal --- provavelmente por mediação de algum figurão do novo regime --- o mesmo não se pode dizer do resto do país. No Estado de São Paulo, por exemplo, podem ser tomados os casos de cinco Lojas, de quatro cidades, de diferentes regiões do Estado:
1. Na Loja PIRATININGA, da Capital, o Livro de Atas nº 45 foi encerrado na folha nº 84, com o final da ata nº 2.993, de 20 de outubro de 1937. Nessa mesma folha, consta um termo, com os seguintes dizeres: "Tendo sido, por ordem das autoridades do país, fechados os templos maçônicos e interrompidos os nossos trabalhos, os trabalhos de reabertura foram, por deliberação da Diretoria, lançado em um livro de atas, a partir de 17 de janeiro de 1940, data em que foi permitido, novamente funcionarem as Lojas. Ass. : A. Pacheco Júnior - Secretário". Na ata nº 2.994, de 17 de janeiro de 1940, consta que o Ir.: Secretário informa que não pode dar leitura à ata dos últimos trabalhos, em virtude de terem sido, os arquivos, apreendidos pela autoridade policial; é resolvido, então, que se inicie um novo livro de atas e um novo livro de presenças.
2. Na Loja FÉ E PERSEVERANÇA, de Jaboticabal, consta, em ata de 29 de outubro de 1937, que o Venerável Mestre, major Hilário Tavares Pinheiro, informava que "em virtude de Lei Federal editada pelas autoridades do País, foi fechada toda a Maçonaria brasileira e, por esse motivo, fica, de hoje em diante, fechada esta Loja, até ulterior deliberação". A Loja só iria ser reaberta, oficialmente, a 3 de setembro de 1943, embora, já a partir de 1940, as demais Lojas tenham voltado a funcionar. A data de 29 de outubro --- quando a Loja foi fechada --- pode ter sido registrada com erro (seria 29 de novembro), ou pode ser verdadeira, reforçando, então, a tese de que as Lojas começaram a ser fechadas já quando o Estado Novo estava sendo articulado, em sua fase final.
3. Na Loja FIRMEZA, de Itapetininga, não constam atas do período compreendido entre outubro de 1937 e janeiro de 1940. No dia 20 de janeiro de 1940, cogitava-se da autorização policial para a reabertura da Oficina.
4. Na Loja ORDEM E PROGRESSO, da Capital, o Livro de Atas nº 18 termina, abruptamente, à folha 68, estando, todas as demais, até à última, de nº 100, em branco. Nessa folha 68, está lavrada a ata da sessão de 27 de setembro de 1937, na qual foram lidos diversos artigos de jornais, criticando o integralismo de Plínio Salgado. A ata seguinte, no livro nº 19, tem a data de 5 de outubro de 1941, sendo registrada como a primeira reunião de reabertura dos trabalhos, realizada na rua Passos, nº 246, residência do Irmãos Serpa Sobrinho. Nela consta, textualmente, o seguinte: "Os trabalhos foram abertos às 15 horas e de acordo com a convocação feita pelo Ir.: Serpa, o qual foi aclamado Secretário, em continuação de mandato, por se achar exercendo esse cargo na ocasião em que, por ordem do governo federal, foram suspensos os trabalhos". Para dirigir os trabalhos, foi aclamado o Irmão Elias Rahal e, para Orador, o Irmãos Luís Trento. O Ir.: Serpa declarava, na ocasião, que a reunião era para tratar da reabertura dos trabalhos, pois a Loja "Ordem e Progresso", uma das mais antigas e das de maior tradição em São Paulo, não podia continuar inativa, pois grande parte das suas co-irmãs já se achava em funcionamento; ao final dos trabalhos, deliberou-se convocar outra reunião, para, definitivamente, serem reiniciados os trabalhos no templo.
5. A Loja ESTRELA DE SANTOS, de Santos, fundada a 22 de junho de 1937, embora tenha recebido sua Carta Constitutiva, a 8 de outubro de 1937, só iria ser regularizada a 1 de agosto de 1942. Além disso tudo, não foram fundadas novas Lojas no Estado, em todo esse período. E o Boletim Oficial do Grande Oriente de S. Paulo interrompeu sua publicação em outubro de 1937 --- quando foi publicado o último número da década --- só a tendo restabelecida em 1943.
A reabertura das Lojas, em 1940, deve-se à atitude destemida de Benedicto Pinheiro Machado Tolosa, que, em plena vigência do castrador e liberticida Estado Novo, compareceu, como Grão-Mestre Adjunto, no exercício do Grão-Mestrado --- o Grão-Mestre, José Adriano Marrey Júnior estava licenciado --- perante as autoridades policias a serviço da ditadura, e assumiu, desassombradamente, o compromisso de responsabilidade pessoal pela manutenção da ordem, o que fez com que fossem autorizados os trabalhos maçônicos.
Do livro "História
do Grande Oriente de São Paulo"
Editora do GOB - 1994
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