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HIKAL E DEBIR
Ir.: José Castellani
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O Resp.: Ir.: Carlos Guedes
de Oliveira, do Or.: de Campinas (SP), apresenta a seguinte questão:
"Para o Rito Moderno, o significado de Hikal e Debir é o mesmo dado no
Rito Escocês Antigo e Aceito? Hikal, de acordo com uma explicação que vi, traduz-se
assim: "Hic Imperat Kristós, abominatio Luciferi" (Aqui triunfa o
Cristo, abominação aos filhos de Lúcifer), enquanto Dehbir (ou Debir) teria
o seguinte significado: "Diaboli Ecclesia Beata Hiram Invocat Reverenter"
(A Igreja Bem-Aventurada de Lúcifer invoca religiosamente Hiram".
Jean Kotska, de quem jamais ouvi falar, é o autor dessa explicação. O que acha"?
Resposta:
Inicialmente, é bom que se esclareça, para quem não sabe, que Debir corresponde
ao Oriente dos templos maçônicos e Hikal, ao restante do templo. A terminologia
é mais aplicada em Loja de Mestre, mas pode, sem maiores problemas, ser usada,
também, nos demais graus.
Esclarecida essa parte, já se pode analisar a explicação de Jean Kotska, a qual
merece lugar de destaque na galeria dos "achismos" e invenções
maçônicas.
Realmente, colocar as palavras Hikal e Debir, como siglas de frases latinas,
é "d´escrachar", como diria Eça de Queirós, pela boca de seu personagem,
conselheiro Acácio, em "Primo Basílio". É ginástica mental!
Na realidade, a origem das palavras é bíblica, embora, no capítulo 6 de Reis
I, a tradução delas lhes tenha dado um sentido ligeiramente diferente do original.
Vejamos:
O templo de Jerusalém era um conjunto de três partes, que se sucediam: a primeira,
denominada Ulam (pórtico, átrio) era aquela em que se formava a assembléia do
povo, para tomar parte no culto sacrifical; a segunda, chamada Hikal (santo;
no texto, tirado do original, traduz-se por templo) era ocupada pelo altar dos
sacrifícios e era nela que os sacerdotes (coanim) desempenhavam as suas funções;
a terceira, denominada Debir (santo dos santos; no texto, tirado do original,
traduz-se como santuário), era o lugar em que era guardada a Arca da Aliança
e onde somente o Supremo Sacerdote (Cohen Gadol) entrava, uma vez por ano, no
Dia do Perdão, ou da Expiação (Iom Kipur). O Levítico,
em seu capítulo 16, mostra a ordem de Deus a Moisés, em relação ao Tabernáculo,
que era armado durante o êxodo e
que foi o precursor do templo de Jerusalém:
"Avisa o teu irmão Aarão de que não pode entrar a qualquer hora no santuário
(Debir, no original), para além do véu, diante do propiciatório que está sobre
a arca, a fim de não morrer, porque Eu apareço numa nuvem , sobre o propiciatório"
(Levítico, 16-2 - O Grande Dia da Expiação). Em Reis
I, pode-se ler: "O templo que o rei Salomão edificou
ao Senhor media sessenta côvados de comprimento, vinte de largura e trinta de
altura.
O pórtico (Ulam, no original), à entrada do templo, media vinte côvados de comprimento,
no sentido da largura do templo, e dez côvados de largura na frente da fachada
do edifício.
O rei pôs no templo janelas com grades de madeira, Construiu, encostados aos
muros do edifício, andares que rodeavam o templo (Hikal, no original) e o santuário
(Debir, no original). Cercou assim o edifício de andares laterais"
(Reis I, 6-2 a 5).
A tradução bíblica referida é a mais conhecida, ou seja, a Vulgata. As mais
famosas traduções dos textos originais hebraicos e aramaicos são:
A Versão dos Setenta, nome dado à tradução grega do chamado Antigo Testamento,
feita em Alexandria, entre 250 e 100 a.C. . Tem esse nome por causa da lenda
que cerca as suas origens: setenta sábios judeus, trabalhando independentemente
uns dos outros, teriam chegado a traduções idênticas;
os Targumim, do século III da era cristã, tradução, para o aramaico, destinada
aos judeus da Palestina, que não mais entendiam hebraico;
as Versões Siríacas, feitas, provavelmente, no primeiro século a.C., em idioma
da Síria e da Mesopotâmia Ocidental;
as Antigas Versões Latinas (Veteres Latinae), nome dado às traduções latinas,
feitas antes da Vulgata, no segundo século da era atual;
a Vulgata, tradução latina da Bíblia, feita por S. Jerônimo, no fim do século
III, a pedido do papa S. Dâmaso. Primeiro foi revista a versão das Vetere Latinae
para o chamado Novo
Testamento; depois, foi feita a revisão dos Salmos, segundo o texto grego, finalmente,
foi realizada uma nova tradução latina do Antigo Testamento, diretamente do
texto original hebraico.
A Vulgata, dessa maneira, resulta do trabalho nessas três fases de revisões
e versões.
É isso aí. Simples, não? Pra que "inventar"?
Do livro "Consultório Maçônico" vol. III
Editora A Trolha - 1a. ed.:1992 - 2a. ed.:1998
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