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O GRANDE ORIENTE DO BRASIL E OS
PRIMEIROS
E AGITADOS ANOS DA REPÚBLICA
Ir.: José Castellani
Implantada a República, Deodoro assumiria o poder, como chefe do Governo Provisório, com um ministério totalmente constituído de maçons: Quintino Bocayuva, na Pasta dos Transportes; Aristides Lobo, na do Interior; Benjamin Constant, na da Guerra; Ruy Barbosa, na da Fazenda; Campos Salles na da Justiça; Eduardo Wandenkolk, na da Marinha; e Demétrio Ribeiro, na da Agricultura. Esses homens foram escolhidos, por representarem --- com exceção de Ruy, que era chamado de "republicano do dia 16" --- a nata dos "republicanos históricos", que, por feliz coincidência, pertencia ao Grande Oriente do Brasil, numa época em que a Maçonaria abrigava os melhores homens do país e a intelectualidade da nação.
A 19 de dezembro do mesmo ano de 1889, pouco mais de um mês após a implantação da República, Deodoro --- iniciado na Loja "Rocha Negra" (Rio Grande do Sul), a 20 de setembro de 1873 --- era eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, tendo, como Adjunto, Josino Nascimento e Silva, iniciado na Loja "Piratininga", de São Paulo. Ele só iria tomar posse do cargo, todavia, a 24 de março de 1890, enquanto Josino só assumiria a 18 de agosto do mesmo ano.
Deodoro, na realidade, pouco podia se dedicar ao Grão-Mestrado, pois o novo regime necessitava de consolidação e não contava com o consenso de seus artífices, já que, desde os primeiros momentos, havia duas correntes republicanas, com idéias antagônicas: uma queria uma república democrática representativa, enquanto a outra desejava uma ditadura sociocrática do tipo comtista, ou seja, de acordo com a doutrina positivista de Comte (e não se pode esquecer que grandes maçons, expoentes do movimento republicano, como Benjamin, Lauro Sodré e Júlio de Castilhos eram positivistas). Acabaria vencendo a corrente democrática, sustentada por Ruy Barbosa, seu maior expoente e a cuja diligência deve-se a elaboração do projeto de Constituição Provisória, em decorrência da qual se instalou, a 15 de novembro de 1890, o Congresso Constituinte, que, a 24 de fevereiro de 1891, aprovava e promulgava a primeira Constituição da República, a qual instituiu o presidencialismo e o federalismo. Dois dias depois, eram realizadas as eleições indiretas, com duas chapas concorrentes, ambas compostas por maçons: Deodoro, para presidente, e Eduardo Wandenkolk, para vice; e Prudente de Moraes, para presidente, e Floriano Peixoto, para vice (1). A vitória foi de Deodoro, por pequena margem, mas, como vice, foi eleito Floriano. Nessa Ocasião, o Grande Oriente do Brasil enviava carta de congratulações ao seu Grão-Mestre, a qual foi respondida a 5 de março (2).
Todavia, uma crise, envolvendo o Executivo e o Legislativo, já se desenvolvia, desde janeiro desse ano, quando o ministério, chefiado pelo antigo líder conservador, barão de Lucena, mostrou-se impotente para enfrentá-la (daí o grande número de votos dados a Prudente, contra Deodoro, na eleição indireta). (...) Politicamente inábil --- embora militar brilhante --- Deodoro tinha que enfrentar um Parlamento hostil e, por parte da imprensa, críticas a que não estava acostumado e que levariam ao decreto de 23 de dezembro de 1889 --- chamado de "decreto rolha" --- que instituía violenta censura à imprensa. Além disso, muitos dos seus ministros discutiam, como é de hábito num regime democrático, os seus atos, opondo-se algumas vezes a eles, o que ele não aceitava, por sua formação na caserna; isso levaria à crise de janeiro de 1891, quando os ministros pediram demissão. Nessa ocasião foi que, demonstrando sua inabilidade, convocara, para compor o novo ministério, o barão de Lucena, notório monarquista, o que desagradou a todos os republicanos históricos.
Em conseqüência do difícil relacionamento, o Congresso viria a ser dissolvido, concretizando o primeiro --- de uma longa série --- atentado à democracia republicana. Ocorreu que, para que Deodoro fosse eleito, houvera uma verdadeira corrente de ameaças, aos congressistas, veladas, ou claras, de uma reação armada, partidas tanto do Exército quanto da Marinha. Isso foi o que gerou o ambiente hostil. E Deodoro, não podendo governar com o Congresso, dissolveu-o a 3 de novembro de 1891.
Com isso, perdeu todos os apoios, inclusive nos meios militares, pois uma ditadura seria uma mancha muito grande, para um regime republicano, que ainda engatinhava e que procurava a sua consolidação.. E, quando a 23 de novembro, o almirante Custódio de Mello, a bordo do encouraçado "Riachuelo" , declarou-se em revolta, em nome da Armada, Deodoro, isolado, renunciava à presidência, para não desencadear uma guerra civil, entregando o governo a Floriano, seu substituto constitucional. Obviamente, como uma amostra do povo brasileiro, os meios maçônicos também reagiram às atitudes de seu Grão-Mestre, na presidência da República. E Deodoro, desencantado de tudo, renunciava também ao Grão-Mestrado, em carta de 18 de dezembro de 1891 (3), sendo substituído, interinamente, pelo Grão-Mestre Adjunto, ministro Antônio Joaquim de Macedo Soares, que havia sido eleito a 15 de junho de 1891, para ocupar a vaga deixada pela morte de Josino do Nascimento e Silva, ocorrida a 18 de abril daquele ano.
No período de Macedo Soares seria promulgada uma nova Constituição do Grande Oriente, em 1892, a qual previa a criação de Grandes Lojas estaduais, federadas ao GOB. Com isso, as primeiras Grandes Lojas instaladas foram as de S. Paulo e da Bahia (em S. Paulo, já havia sido autorizada a instalação de uma Grande Loja Provincial, em 1889). Para dirigir a de S. Paulo, foi chamado Martim Francisco Ribeiro de Andrada III, e, para a da Bahia, Thomaz Paranhos Montenegro.
No plano social, os maçons, diante dos problemas surgidos com a rápida industrialização do país, principalmente no Estado de São Paulo, começavam a tratar dos interesses do incipiente operariado industrial, ainda sem organismos protetores. Assim é que, a 17 de maio de 1892, conforme notícias dos jornais diários da capital de S. Paulo "reuniram-se todas as lojas maçonicas desta capital, com o fim de tratar de interesses humanitarios e especialmente dos do operariado paulista". As Lojas da capital paulista eram, na época: Piratininga, Amizade, América, Roma, Ordem e Progresso, Sete de Setembro e Garibaldi. (...)
Notas
1. Não se sabe quando Wandenkolk foi iniciado, mas há comprovação de que foi maçom, através de uma ata, de 25 de julho de 1902, da Loja "Cinco de Abril", de Santos (SP), onde consta que, nesse dia, por unanimidade, foi concedido o título de membro honorário ao Ir.: Wandenkolk. Prudente deve ter sido iniciado em 1862, ou 1863, na Loja "Sete de Setembro"; em 1875, foi fundador da Loja "Piracicaba". Floriano foi iniciado na Loja "Perfeita Amizade Alagoana", de Maceió, a 15 de fevereiro de 1871.
2. A carta de Deodoro, com timbre do Gabinete do Presidente da República dos E.U. do Brasil, estava assim redigida:
"Ás altas Dignidades do Grande Oriente do Brazil
S.: S.: S.:
A prancha de 2 do corrente mez E.: V.:, em que me apresentaes felicitações pelo cargo de Presidente Constitucional da Republica dos Estados Unidos do Brazil, com que me honrou o Congresso Nacional está recebida. Ela assaz penhorou-me, não só por partir de vós Irs.: respeitados pelo caracter e pela virtude, que pautam vossos actos pelas lições do Supr.: Arch.: do Univ.: como tambem pela confiança que mostraes continuar a depositar em minha pessoa e pelos votos que fazeis pela minha felicidade".
3. Essa carta, bastante lacônica, dizia, apenas:
"Saude Amizade União
Desejando retirar-me á vida privada renuncio no irmão competente, os cargos de que estou de posse.
Capital Federal, 18 de Dezembro de 1891"
Do livro "História do Grande Oriente do Brasil - A Maçonaria na História
do Brasil"
420 páginas - Editora e Gráfica do GOB - 1993.
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