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Compagnonnage II

Ir.: Frederico Guilherme Costa Or.: Rio de Janeiro / RJ

- ( Continuação )

5. COMPAGNONNAGE E MAÇONARIA

No que pese algumas analogias lendárias entre estas duas instituições, suas origens históricas são bem distintas. O Compagnonnage surge na França no fim da Idade Média e no grupo dos trabalhadores manuais de diversos tipos (sapateiros, por exemplo) e não apenas como pedreiros construtores. Seus membros tinham a obrigação de viajar, aperfeiçoando-se em seu ofício (Tour de France).

A Maçonaria operativa nasce nas guildas dos Maçons talhadores da pedra de cantaria, o freestone mason, muito diferente do rough mason (trabalhador vulgar dos canteiros ingleses). Se reuniam em Lojas, faziam referências aos Antigos Deveres (Old Charges), sendo considerado o Manuscrito Regius (1390) e o Manuscrito Cooke (1410) os textos do dever mais antigos da Confraria.

Enquanto o Compagnonnage permaneceu fiel aos seus princípios operativos, a Maçonaria, a partir do século XVII passará a aceitar elementos estranhos ao ofício da construção, numa época de conflitos políticos e religiosos. A transposição dos mitos e dos emblemas invocativos da construção de pedra para a edificação do edifício ético e social do homem ilustrado, passa a ser o objetivo desta Maçonaria renascida nos filósofos, nos comerciantes e nos líderes políticos que iriam sacudir a Europa em nome das luzes.

Assim, em 1717, quatro Lojas inglesas se reúnem em Londres para fundar uma Grande Loja para, em 1723, promulgarem uma Constituição. A partir daí temos uma notável expansão por toda a Europa e Estados Unidos e seus membros não são exclusivamente trabalhadores como no Compagnonnage, mas nobres, clérigos, comerciantes, homens de letras, militares, magistrados, etc.

É verdade que o Compagnonnage incorporou progressivamente alguns usos e costumes da Maçonaria, inclusive práticas ritualísticas, conforme se pode observar na sua extensa iconografia: os três pontos triangulares, a referência ao Grande Arquiteto do Universo, a letra "G" no centro da estrela, assim com a Lenda de Hiram, o arquiteto do Templo de Salomão que foi assassinado pelos três maus companheiros.

Entretanto, as duas instituições são absolutamente distintas e independentes. Alguns Companheiros célebres, como Agricol Perdiguier e Lucien Blanc, o fundador da Union Compagnonnique, foram ao mesmo tempo Maçons e membros do Compagnonnage, mas as relações entre as duas sociedades devem ser entendidas apenas na aparência, nunca como uma mesma e única associação.

 

ANEXO UM - O TOUR DE FRANCE

A prática da viagem é indissociável do Compagnonnage. Desde o início histórico desta associação ela era utilizada pelos trabalhadores através da França. O objetivo era a busca do aprimoramento nas cidades visitadas, tais como: Orleans-Tours-Nantes-Bordeaux-Toulouse-Marseille-Lyon-Troyes-Paris.

Algumas cidades, em função do seu desenvolvimento específico, constituíam etapas obrigatórias: Toulon, Rochefort, Thiers para os Cuteleiros, Montpellier para os Marceneiros, Cognac, Beaune e Nevers para os Tanoeiros, Lyon e Saint-Etienne para outros, etc.

A viagem podia durar de dois a 10 anos. O percurso era feito a pé. O Companheiro portava uma cabaça de água e um bastão onde amarrava um saco com objetos pessoais.

Hoje em dia a viagem é feita pelos meios de transportes modernos. O percurso foi modificado. A viagem é feita atualmente pela Normandia, Bretanha e até mesmo fora da França, e do Continente Europeu, estendendo-se desde a Alemanha, Bélgica, Suíça até os Estados Unidos.

O Tour de France tem permitido o enriquecimento profissional, o contato fraternal e o alargamento dos horizontes humanos.

 

ANEXO DOIS - O DEVER

O Dever representa o conjunto de práticas, regulamentos, ritos, lendas e símbolos adotados pelas

sociedades dos diversos ofícios. Toda profissão possui o seu próprio dever. Na verdade o termo é sinônimo de Compagnonnage e federa várias sociedades que possuem as credenciais legendárias e que se utilizam das tradições comuns. Assim existe os Companheiros do Dever, filhos do Mestre Jacques e do pai Soubise, os Companheiros do Dever da Liberdade, filhos de Salomão e os Companheiros dos Deveres Unidos.

O ingresso, a recepção, é a cerimônia que integra o candidato no seio da sociedade. Paralelamente, ele é admitido como uma espécie de estagiário na qualidade de aspirante. Deve demonstrar capacidade profissional para realizar um determinado ofício.

Ao término de um período mais ou menos longo (de dois a três anos), o aspirante é convidado a realizar uma obra-prima, um trabalho perfeito. Segundo os ofícios, ele se utilizará de uma maqueta de madeira ou uma escada, de um par de sapatos, de um objeto de arquitetura, etc.. Os objetos são muito variados, mas a obra-prima deverá testemunhar o aprimoramento profissional e resolver numerosas dificuldades técnicas.

O trabalho executado receberá severas críticas dos Companheiros. Se a obra e as qualidades morais do aspirante se mostrarem dignas, ele será recebido através de uma cerimônia iniciática, onde o ritual e os símbolos são destinados a sensibilizar o recipiendário quanto aos seus deveres para com os Companheiros e para consigo mesmo, tanto no trabalho quando na vida cotidiana. O conteúdo desta cerimônia, as provas simbólicas às vezes emprestam referências cristãs, mas são secretas e não podem ser reveladas em função dos compromissos assumidos.

No curso da cerimônia o Companheiro recebia o seu bastão, suas cores e adotava um sobrenome composto, geralmente, do nome da província seguida de uma qualidade, ex.: Tours o Perseverante.

Este sobrenome servia para esconder a verdadeira identidade do Companheiro, da polícia quando a sociedade estava semiclandestina, mas na verdade pretendia marcar a mudança do profano para a condição de Companheiro.

As cores estavam representadas em tiras de seda ou de veludo, nas quais os matizes ou emblemas variavam de acordo com a profissão e de uma sociedade para outra. Presentemente elas tende

m a se unir. As tiras eram amarradas ao redor do chapéu ou penduradas nas casa do botão. Hoje em dia elas são freqüentemente usadas na écharpe.

 

ANEXO TRÊS - A CAYENNE

A cayenne é a sede de uma sociedade de Companheiros. A palavra deriva do latim "casa". Ela é empregada pelos Padeiros, Carpinteiros, Telheiros enquanto que outros, como os Marceneiros, empregam a palavra "chambre".

Até a metade do nosso século tratava-se de uma pousada, de uma taverna, escolhida pelos Companheiros para servir de abrigo quando do Tour de France. Ali eles faziam as suas refeições. Cada corporação de ofício possuía sua própria sede. Era ali que os Companheiros se reuniam, onde eram conservados os arquivos e promovidas as assembléias. Também neste local eram examinadas as obras-primas dos aspirantes e realizadas as cerimônias de iniciação.

A estalajadeira era chamada de Mère (Mãe) e o seu marido de Père (Pai). A Mãe é um personagem importante no Compagnonnage. Freqüentemente esposa de um Companheiro, ela era criteriosamente escolhida dentro um elevado conceito de moral. Estava investida de grande autoridade e inspirava profundo respe

ito. Os Companheiros jamais a chamavam de Madame, mas de Nossa Mãe.

A instituição da Mère é muito antiga. Sua primeira referência data de 1540, em Dijon. Ela se mantém viva nos nossos dias, no seio de três associações do Compagnonnage. Evidentemente que as antigas hospedarias foram substituídas por modernas sedes, nos dias correntes.

Nem todas as sedes possuem uma Mère e na ausência dela vamos encontrar uma honorável hospedeira, ocupando aquele papel. Além da Mère, dois outros personagens representam um papel essencial no funcionamento da sociedade: o Premier en ville e o Rouler.

O Premier en ville, também é chamado de "Capitão" ou "Primeiro Companheiro" nas sedes dos Marceneiros e Serralheiros. Ele é o presidente da sociedade. É eleito a cada ano ou por um período de três anos. Ele é auxiliado por um secretário.

O Rouler tem a função de escrever o registro da Cayenne e o nome dos recém-chegados. Ele deve colocar-se ao lado dos mestres e também preside as cerimônias.