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1. INTRODUÇÃO
Historicamente podemos considerar o Compagnonnage como uma associação do século XV. Nascido, sem a menor dúvida, paralelamente aos grêmios de construtores, com seus segredos originais sendo, durante o antigo regime, um movimento tipicamente de operários. Jamais reconhecido, perseguido eventualmente, outras tantas tolerado, construiu uma gigantesca rede clandestina de organizações e postos de trabalho. Lutou contra as corporações privilegiadas pelo sistema dominante e por melhores condições de vida. O Compagnonnage foi o precursor dos atuais sindicatos e das cooperativas.
Estas informações estão disponíveis aos visitantes do Musée du Compagnonnage na cidade de Tours, França que foi fundado por iniciativa da cidade de Tours e em conformidade com a Associação dos Companheiros do Dever, a Federação dos Operários da Construção e União dos Companheiros Unidos. Este formidável museu está impregnado de uma história nacional da França representada nos costumes e técnicas do Compagnonnage que realizou ou que realiza o Tour de France. Constituído por doações feitas por estas três associações, torna ainda mais impressionante e autênticas estas coleções.
Compõe o acervo do museu imagens, gravuras, quadros, bandeiras, documentos, objetos raríssimos trazidos de todas as partes da França e coleções que nos lembram as origens lendárias bíblicas, monásticas, cavalheiresca e míticas. Encontramos igualmente objetos de associações assemelhadas, como as corporações medievais e a Franco-Maçonaria. Arquivos contendo as práticas doutrinárias e ritualísticas também estão disponíveis.
Tivemos a oportunidade de visitar todo este acervo que nos apresenta a organização interior dos Compagnonnage, o Dever, a Cayenne ou sede da organização, a Mãe, o Primeiro Cidadão, o Secretário, o Tour de France, Passaportes, Sedes, Lugares de Peregrinação, Festas Patronais e Vida Social.
Existem quadros muito curiosos representando ofícios com suas técnicas extraordinárias: botas sem costuras confeccionadas por sapateiros, régua em miniatura, maquetes de todo tipo, curiosas reduções de tonéis, um púlpito da lavra dos carpinteiros chamados Gaveaux e inúmeras obras de carpintaria. Do mesmo modo e ainda mais interessante são as representações dos ofícios desaparecidos: curtidores, tecedores, chapeleiros, fabricantes de cravos, fundidores, representados nas obras manufaturadas no passado.
Esta sociedade está mais viva do que nunca, desde que saiu da clandestinidade e facilitada pela literatura, pelo cinema, pelo rádio e pela televisão. Reúne, hoje, no seu interior, estupendos artesãos, cuja maior parte constitui os melhores operários da França. O interesse que ela está a despertar presentemente nos obriga a fazer uma viagem no tempo, na alma do Compagnonnage...
2. ORIGENS MÍTICAS
O Compagnonnage remonta a sua origem à construção do Templo de Jerusalém, sob o reinado de Salomão (972-932 a. C.). Seus membros consideram o rei Salomão, Mestre Jacques e o pai Soubise os seus fundadores míticos.
2.1. O rei Salomão. O fundador lendário dos Companheiros Talhadores de Pedra
Segundo a Bíblia (Livro dos Reis) Salomão empreendeu a construção de um templo magnífico para a glória de Yahvé. Este templo guardaria a Arca da Aliança, onde estariam conservadas as Tábuas da Lei recebidas por Moisés. Na entrada do templo existiriam duas colunas, Jakin e Boaz, que estão permanentemente representadas nos quadros, nas representações iconográficas do Compagnonnage.
O Compagnonnage incorporou, no século XIX, a Lenda Maçônica do 3º Grau, o Grau de Mestre Maçom, surgida no século XVIII, referente ao Mestre Hiram, um arquiteto construtor do Templo de Salomão, assassinado por três companheiros que exigiam a palavra secreta que lhes daria o direito a receber o salário dos mestres. O rei Salomão é considerado o fundador legendário dos Companheiros Talhadores de Pedra e de outras sociedades do Devoir de Liberté (Dever da Liberdade): os Marceneiros e Serralheiros. No século XIX, os Tanoeiros, os Carpinteiros, os Sapateiros e os Padeiros do Dever da Liberdade se diziam todos filhos do rei Salomão.
2.2. Mestre Jacques
Outro mestre de obras mítico do Templo de Salomão. A lenda nos dá conta de que após a construção do Templo, Mestre Jacques desembarcou na Provence e se recolheu em Sainte-Baume. Teria sido assassinado neste lugar pelos Companheiros invejosos.
Este Mestre é considerado o fundador dos Companheiros do Dever: Talhadores de Pedra, Marceneiros, Serralheiros e de várias outras sociedades.
Segundo outras lendas, Mestre Jacques teria sido um mestre de obras da catedral de Orleans, chamado Jacques Moler, ou ainda o último mestre da Ordem dos Templários, Jacques de Molay, queimado na fogueira em 1314.
2.3. O Pai Soubise
Este terceiro personagem é igualmente considerado um dos mestres de obras do Templo de Jerusalém. Com Mestre Jacques, ele teria deixado a Palestina para alcançar a Gália, tendo desembarcado em Bordeaux.
3. A ORIGEM HISTÓRICA E ALGUMAS DATAS REPRESENTATIVAS
Os primeiros documentos que atestam a existência do Compagnonnage datam do século XV, mas muito provavelmente já existia no século precedente. Esta corporação representa a mais antiga associação de trabalhadores ainda em plena atividade. Podemos admitir sem maiores problemas que eles tinham uma aspiração pela liberdade já no século XV, o que reforçava a solidariedade entre eles sustentada pelos rígidos regulamentos e rituais secretos longe dos olhares indiscretos dos profanos.
Em 1420 temos uma ordem de Carlos VI convocando o Tour de France dos Companheiros Sapateiros. Em 1480, a primeira imagem representativa dos Companheiros Carpinteiros e Talhadores de pedra.
No século XVI vamos encontrar várias ordens reais contra as confrarias dos Companheiros Alfaiates, Sapateiros e Impressores. Em 1540 verificamos uma primeira referência a Mère nos arquivos judiciais de Dijon.
No século XVII a Igreja Católica condena os Companheiros Sapateiros, Cuteleiros, Seleiros, considerando sacrílegas as suas práticas ritualísticas e de recepção. No decorrer daquele século ocorreu uma cisão entre os Companheiros, provavelmente provocada por motivos religiosos (divisão entre católicos e protestantes).
No século XVIII temos diversas denúncias policiais contra o Compagnonnage. Seus associados foram acusados de perturbar a ordem pública com as suas freqüentes rixas. Como conseqüência, vários ateliers foram interditados e diversos Mestres privados dos trabalhadores competentes. Neste momento o Compagnonnage atuava como um autêntico ancestral dos modernos sindicatos. A palavra surge pela primeira vez com o sentido dassociation ouvrière (associação de trabalhadores), em 1730, em Montpellier.
Em 1791 a lei Le Chapelier (14 de junho de 1791) proíbe a todos os cidadãos de uma mesma profissão de organizar-se com presidentes, secretários ou síndicos com objetivos de regulamentar os interesses comuns. Muito mais do que atingir o Compagnonnage, a lei buscava atingir as corporações de um modo geral.
O século XIX vai ter no Compagnonnage a principal associação de defesa dos trabalhadores. Organização das greves e dos interesses dos trabalhadores até o aparecimento das câmaras sindicais em 1867.
Em 1839 temos a primeira edição do Livre du Compagnonnage de Agricol Perdiguier (1805-1875), Companheiro Marceneiro do Dever da Liberdade. Foi este Companheiro que empreendeu a reconciliação das facções inimigas Gavots e Devoirants fazendo terminar as rixas tão criticadas pelas autoridades e pela população. Perdiguier foi considerado um dos grandes escritores do seu tempo.
Em 1845 ocorreu uma grande greve dos Companheiros Carpinteiros de Paris. Pesadas condenações ocorreram apesar dos esforços do advogado Berryer.
Na Revolução de 1848 vamos encontrar dos mil Companheiros de todas as sociedades representados no 10 de abril, em Paris, jurando eterna fraternidade.
Entre 1874 e 1889 diversas antigas associações de Companheiros e Deveres se organizam num movimento de reconciliação inspirado nas idéias de Agricol Perdiguier, o que permitiu em 1874 o nascimento da Federação Companheira de Todos os Deveres Reunidos que se transformou em 1889 na União Companheira dos Deveres Unidos, ainda hoje existente.
Os efetivos diminuem no curso da segunda metade do século XIX. São resultantes do surgimento das máquinas, do nascimento dos sindicatos e das sociedades mutuárias. Muitos trabalhadores se organizaram em novas formas de associação e deixaram de praticar o Tour de France.
4. O COMPAGNONNAGE HOJE
Malgrado os efeitos da diminuição dos efetivos no final do século XIX, logo após a Primeira Grande Guerra (1914-1918), os Companheiros se multiplicaram no interior das profissões de alto nível e se reagruparam em federações regionais. Assim, em 1941 fundaram a Association Ouvrière des Compagnons du Devoir (Associação dos Trabalhadores Companheiros do Dever). Em 1953 a Federátion Compagnonnique de Métiers du Bâtiment (Federação Companheira dos Ofícios da Construção).
Com a União dos Companheiros, podemos determinar, nos dias de hoje, um total de 20.000 membros, ativos no Tour de France ou reservados. O Compagnonnage procura estimular, através do Tour de France, as modernas técnicas dos ofícios. Seus membros não estão representando um papel saudosista de uma fase excepcional do passado, mas vivendo seus próprios projetos estatutários de trabalho, fraternidade e liberdade.
( Continua )
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