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A Cisão de 1914

Loja Fênix - Lisboa / Portugal

A divisão ocorreu em 1914. Como razões aparentes não se invocaram, claro está, as de natureza política. Ligaram-se antes a questões de rito e de formalidade. Entre o Executivo e o Legislativo do Grande Oriente, por um lado - Grão-Mestre, Grão-Mestre-Adjunto, Conselho da Ordem e Grande Dieta - e o Supremo Conselho do Grau 33, na sua maioria, pelo outro, surgiram problemas de tal ordem que levaram à cisão declarada. Parte do Supremo Conselho do Grau 33 considerou contrário aos acordos de 1869 o texto da Constituição maçónica de 1914 e separou-se do Grande Oriente. Com o apoio e o reconhecimento de grande número de potências maçónicas estrangeiras, constituiu o seu próprio Grémio Luso-Escocês, que veio a ter sede na Rua de S. Pedro de Alcântara, em Lisboa. Para dirigente supremo - Soberano Grande Comendador - elegeu o antigo Grão-Mestre, general Luís Augusto Ferreira de Castro. A este novo Grémio aderiram várias dezenas de lojas e triângulos, com mais de um terço do povo maçónico português. Na verdade, as estatísticas do Grande Oriente Lusitano Unido mostram que, de 1913 para 1914, o número de maçons baixou de 4341 para 2800 e o de oficinas, de 198 para 147. A diminuição não foi toda derivada ao cisma, mas é possível dizer que cerca de 1500 obreiros seguiram desde logo a dissidência, agrupados em cerca de meia centena de lojas e triângulos.

Nem todos estes maçons dissidentes tinham, é verdade, consciência plena das razões profundas que explicaram a cisão. Muitos seguiram as "luzes" da sua oficina, por respeito ou por obediência, mas sem questionarem a validade da separação. Como sempre, motivações de ordem pessoal estiveram por detrás de não poucas atitudes. Mas parece fora de dúvida que as divergências políticas entre radicais e conservadores, com sua expressão social no conflito entre grupos burgueses, se tinham introduzido na família maçónica, levando o grupo mais à direita a constituir-se autonomamente. Este grupo apoiou Sidónio Pais em 1917-1918, enquanto o Grande Oriente foi perseguido e a sua sede assaltada durante o mesmo período.

A identificação do Grande Oriente com o radicalismo republicano prosseguiu. A revolução de 14 de Maio de 1915, dirigida contra a Ditadura conservadora de Pimenta de Castro, teve a chefiá-la quase só maçons: Norton de Matos, Sá Cardoso, Freitas Ribeiro e António Maria da Silva, com Afonso Costa nos bastidores. No ministério que se lhe seguiu, a Maçonaria estava representada por, entre outros, nada menos que o seu Grão-mestre, Magalhães Lima, e o seu Grão-Mestre Adjunto, José de Castro, respectivamente ministro da Instrução e Presidente do Ministério. Na década de Vinte, o novo Grão-Mestre Adjunto e Chefe do Partido Democrático, António Maria da Silva, bateu o record da permanência no poder como Primeiro-Ministro, constituindo seis vezes ministério, com um total de dois anos e quatro meses de administração.

Este carácter político da Maçonaria portuguesa descontentou, todavia, muito obreiro. O número de filiados no Grande Oriente foi baixando, de ano para ano, até 1919, data em que atingiu apenas 1807, agrupados em 88 oficinas. Voltou depois a subir um pouco, mas mantinha-se, por volta de 1922, abaixo daquilo que fora em 1914, já depois da cisão, com 105 lojas e triângulos apenas.

No lado do Grémio Luso-Escocês não corriam as coisas melhor. O seu contingente de filiados ia-se rarefazendo, com a saída de muitos, a entrada de poucos, e regresso de oficinas sucessivas à obediência do Grande Oriente. Em 1919 cabiam-lhe 30 oficinas tão-somente e, em 1922, este número baixara para 23. Em 1925, os perigos que ameaçavam a República e a sociedade portuguesa em geral pressionaram os dissidentes a um acordo com a casa-mãe. Os maçons reconheciam, finalmente, a necessidade de se reunirem, a fim de lutar com redobrado esforço contra o ressurgimento da reacção.

Nos finais desse ano foi possível chegar a uma plataforma de entendimento, a partir da qal se efectivou a união, em Março de 1926. Ferreira de Castro e alguns outros permaneceram de fora, mas a esmagadora maioria voltou a integrar-se no Grande Oriente Lusitano Unido.

Era tarde, porém, para conseguir vencer. Passados dois meses sobrevinha o movimento militar de 28 de Maio e a instauração da Ditadura. Para a Maçonaria portuguesa era o começo da agonia. Identificada com a República, caía agora com ela.